Você vestir a camisa de uma marca pode estar muito além de uma necessidade social. Vamos lá.
Este texto é um complemento ao vídeo do canal Detonando Gueek do grande youtuber Gotikozzy, uma das raras mentes inteligentes deste meio. Gotikozzy utilizou um estudo do psicólogo norte-americano Edward Thorndike como referência e definição do conceito de ser fanboy. Embora a psicologia experimental não seja necessariamente de minha especialidade, percebi que o conceito de Thorndike se assemelha aos estudos de alguns autores dos quais domino mais. Entre eles, o filósofo Arthur Schopenhauer e o psicanalista Sigmund Freud. Por isso utilizarei mais esta via, por questão de experiência e domínio.
Schopenhauer, de sua forma polêmica, expressava que o "homem comum", isto é, aquele que havia aperfeiçoado pouco suas faculdades mentais, tendia a ter como instinto a convivência grupal com homens que delatassem características semelhantes. Para o filósofo, isto nada mais era do que um reflexo do homem primitivo, que se sentia seguro apenas sobre a presença de seu bando, pois sabia que estranhos poderiam ser perigosos - comida e território estavam em jogo.
Desta forma, se ficamos com "nosso bando", isto nos ajuda a nos sentir confortáveis e seguros, avessos a conflitos - tudo não passa, no geral, de um instinto de sobrevivência.
No geral, tendemos a "traduzir" estes instintos primitivos e de sobrevivência em aspectos de personalidade e hábitos modernos, como completa Sigmund Freud.
Colocando isto em uma situação "gamer": à primeira vista é um pouco óbvio nos sentirmos melhores com pessoas que preferem a mesma marca do que nós, mas no mundo moderno, existem diversas variáveis que mostram que isto está além do sentido de sobrevivência primitivo. Por exemplo, eu saber que outra pessoa optou pelo mesmo produto que eu pode ser um reforço de minha inteligência ou sinal de "estar fazendo a coisa certa". Quanto mais destes encontramos, mais reforçamos esta tese, o que reforça nosso ego. Há também o fator do esforço, do dinheiro que foi impregnado ou mesmo da impossibilidade de contar com as outras opções. Por fim, indo para Freud de novo, a tranquilidade nos dá a "certeza", como uma espécie de "fé incondicional" - semelhante à religiosa.
Por isto, tranquilamente posso afirmar que ser fã incondicional de uma marca é muito mais tranquilizante do que se manter "isento". A imparcialidade (desmentida pelo discípulo de Freud, Jean-Jacques Lacan, em seu sentido mais profundo) exige sempre a análise e o "afastamento" da tranquilidade da certeza - ou, em outros casos, também acaba virando um aspecto projetivo. Passamos a "criar regras", normalmente ligadas aos momentos marcantes que tivemos com os games e tudo aquilo que não se encaixa nelas, é duramente criticado (não importando o lado), conceito definido de forma mais profunda por Carl Gustav Jung.
Assim, posso afirmar que esta "parcialidade" pode ser um tanto quanto saudável ou não, dependendo do momento da vida que estamos e também de qual é nossa relação prática com os games. Um simples consumidor, que apenas joga, dono de um Playstation 4, talvez não deva "se estressar" se perguntando se State of Decay 2 é bom - se expor ao jogo irá apenas lhe gerar dúvidas e tirá-lo do conforto de "seu bando". Por outro lado, esta não deixa de ser uma possibilidade que ele possa escolher, afinal, trata-se de sua vida e suas escolhas.
Mas e a guerra de consoles? Quando o fanboy passa a atacar de forma violenta o lado oposto?
Como eu disse, a guerra de consoles pode ser nada mais do que um bando primitivo que ganhou uma batalha contra outro e comemora entre si sobre quão mais fortes são. Isto lhes dá confiança para seguir adiante. No entanto, no sentido moderno, quando o integrante ou mesmo o grupo abandona os argumentos e o pensar, trocando-os por ofensas e ameaças físicas, provavelmente algo não está bem com ele (s) - a agressividade e quebra de regras a este ponto sinaliza problema. E dependendo do quanto esta prática está presente na vida do indivíduo, pode ser que sejam aspectos projetivos de revoltas interiores que nada têm a ver com videogames, indicando necessidade de tratamento.
Se conclui então que ser fanboy pode não ser todo este monstro dos quais os "intelectuais" criticam. Como também pode ser (um beijo para o pessoal de exatas).
Trata-se de ser humano. De querer estar seguro com aqueles que se confia e evitar o desconforto de pensar que tudo aquilo pelo qual lutamos pode não ser algo de qualidade - a escolha do questionar é sua.
Abraço e até o próximo texto!
terça-feira, 29 de maio de 2018
sexta-feira, 4 de maio de 2018
Apenas Jogue!
Como psicólogo e gamer, muitas vezes consigo fazer analogias de minhas próprias sensações corporais em relação ao jogar e nisto produzir um material que pode ajudar quem me acompanha, tanto no consumo, quanto na própria qualidade de vida - leia-se aqui, satisfação com os produtos que compra.
Lembro da Microsoft ter liberado versões "closed" de Sea Of Thieves para os Xbox Insiders, das quais fui lá e tive experiências com o jogo. E uma mesma história de minha vida se repetiu. Contarei depois.
Depois de ver "fulano youtuber" ter falado "x" e "y" sobre o jogo, fui lá e adivinhem que impressões eu tive? Exatamente estas impressões "x" e "y" que ele havia descrito. A lógica é você pensar: "Uau, esse fulano entende mesmo de games!", certo? Pois é. Porém é em situações como estas que esquecemos de um fator crucial para que aproveitemos bem nosso produto: nossa individualidade.
Basicamente então, "desisti" de SoT. Desinstalei o jogo, fui para novos ares. Quando tive oportunidade de jogar a versão final, sequer fiz questão - minha opinião já estava formada e acabou. Que dirá em relação à data de lançamento, vendas, reviews e vai por aí. Até o "algo que já havia acontecido comigo uma vez" aconteceu de novo e conseguiu mudar completamente minha opinião.
Jogar. Mas eu digo jogar de verdade.
Apareceu então meu primo com o jogo, todo empolgado para jogarmos em multiplayer. Ele tem treze anos, eu, vinte e oito e uma das coisas que sempre faço é "ceder" (no sentido de jogar o que eu não quero) só para incentivar o moleque a jogar videogame - coisas de "tiozão". Fui lá e comecei a jogar, meio desanimado. O resultado foi que nenhum jogo do qual eu me recordo recentemente fez eu me divertir tanto quanto Sea of Thieves.
E aqui entra todos os quesitos: gráfico, jogabilidade, diversão (leia-se aqui humor e risadas) e até mesmo a tal "imersão" - eu realmente sentia que "estava no mar", assim como realmente "sofria" com os perigos e suas expectativas como naufrágios e tubarões. O trabalho em equipe era algo crucial. Quanto melhor agíamos em dupla, mais sucesso tínhamos nos objetivos do jogo, tão criticados, mas dos quais é necessário a obtenção do sucesso nos mesmos para se compreender.
E então finalmente revelo a vocês o tal "fato que já havia acontecido comigo": às vezes nós temos determinada experiência com algum jogo - criamos uma opinião sobre ele depois de jogarmos por algum tempo. Esta opinião pode ser negativa. No entanto, acredito que para que essa opinião seja realmente pertinente e não deixemos escapar um tesouro valioso de nossas mãos, são necessários duas coisas: uma "mente limpa", juntamente com uma "devida compreensão".
Vou explicar o que seriam estes itens.
Devida compreensão é você literalmente compreender a essência, o TODO, o sentido que o jogo propaga. Em resumo, você precisa APRENDER A JOGÁ-LO - e isso não se baseia em "saber o que cada botão faz". E isso você não vai conseguir em 15min - possivelmente nem em 1h. É um processo que exige mais do quão do imerso você está no jogo do que necessariamente em tempo, algo mais psicológico, embora o tempo de jogo também possa ser um bom item de entrada nesta imersão. E aqui entram fatores que normalmente os gamers não observam em si-mesmos antes de começar a jogar qualquer jogo, dentre eles, seu próprio estado emocional e mental.
Não adianta. Se você chegou em casa estressado do trabalho, só querendo sua partida de FIFA ou Call of Duty para relaxar, é natural que você ache um The Witcher 3 uma merda - não afirmando também que você TEM QUE achar ele sensacional. Nós apenas não admitimos isto. Por que? Aqui entra diretamente o segundo conceito, a "mente limpa".
Aqui entra a diferença entre eu e meu primo. Para mim, Sea of Thieves era um game que um youtuber tinha tecido a opinião dele sobre, fui lá e "acabei vendo a mesma coisa". Para meu primo, era um game que ele "nunca havia jogado" e ele só sabia que estava sendo muito falado a respeito. A opinião dele, tirando a parte do hype, era nula - ele não tinha um conceito de "bom" ou "ruim". Devido a esta "mente limpa", ele conseguiu absorver fatores do jogo que eu não consegui de primeira, pois estava "intoxicado" pela opinião de outra pessoa - e isto pode se aplicar à qualquer experiência na vida, não só em games.
Por isto é importante a prática do questionamento, a mentalidade aberta, a boa saúde mental e até mesmo esta "distância" da opinião alheia quando vamos ter experiência com algo. Diferente do que pensamos, não, saber a opinião do outro não é algo bom! É um verdadeiro "material tóxico" que destrói nossa experiência individual, pois propaga nela um "vírus" de uma individualidade que não é nossa!
Por isso, eu deixo um recado à todos os gamers, inclusive os youtubers e jornalistas, que "precisam" criar opiniões sobre jogos: não se baseiem na opinião de ninguém, não joguem quando não quiserem jogar, estão estressados ou simplesmente querem jogar outra coisa - a experiência legítima de vocês com o jogo será prejudicada ou pior, falsificada. O gamer consumidor jogará seu dinheiro fora e o youtuber/jornalista propagará uma informação "falsa" que terá um ímpeto mais negativo do que positivo.
Não precisamos de informações para jogar, se não aquelas que o próprio console já nos dá - gênero, número de jogadores, imagens, videos, demos e até versões avaliação. Outro fator que realmente nos faz lavagens cerebrais são esses outros aí: notas, vendas, números...eles não dizem nada que realmente importa, a menos que você trabalhe com o mercado gamer. Tua experiência com teu jogo, como eu falei, é algo único e individual. Se você quer conteúdo gamer na internet, busque gameplays mudas ou narrativas, artigos que falam mais de informações técnicas (como as que o console já traz) e vai por aí. Mas o principal é jogar. Jogar de verdade, de alma limpa.
Sem ter assistido. Sem ter lido.
Lembro da Microsoft ter liberado versões "closed" de Sea Of Thieves para os Xbox Insiders, das quais fui lá e tive experiências com o jogo. E uma mesma história de minha vida se repetiu. Contarei depois.
Depois de ver "fulano youtuber" ter falado "x" e "y" sobre o jogo, fui lá e adivinhem que impressões eu tive? Exatamente estas impressões "x" e "y" que ele havia descrito. A lógica é você pensar: "Uau, esse fulano entende mesmo de games!", certo? Pois é. Porém é em situações como estas que esquecemos de um fator crucial para que aproveitemos bem nosso produto: nossa individualidade.
Basicamente então, "desisti" de SoT. Desinstalei o jogo, fui para novos ares. Quando tive oportunidade de jogar a versão final, sequer fiz questão - minha opinião já estava formada e acabou. Que dirá em relação à data de lançamento, vendas, reviews e vai por aí. Até o "algo que já havia acontecido comigo uma vez" aconteceu de novo e conseguiu mudar completamente minha opinião.
Jogar. Mas eu digo jogar de verdade.
Apareceu então meu primo com o jogo, todo empolgado para jogarmos em multiplayer. Ele tem treze anos, eu, vinte e oito e uma das coisas que sempre faço é "ceder" (no sentido de jogar o que eu não quero) só para incentivar o moleque a jogar videogame - coisas de "tiozão". Fui lá e comecei a jogar, meio desanimado. O resultado foi que nenhum jogo do qual eu me recordo recentemente fez eu me divertir tanto quanto Sea of Thieves.
E aqui entra todos os quesitos: gráfico, jogabilidade, diversão (leia-se aqui humor e risadas) e até mesmo a tal "imersão" - eu realmente sentia que "estava no mar", assim como realmente "sofria" com os perigos e suas expectativas como naufrágios e tubarões. O trabalho em equipe era algo crucial. Quanto melhor agíamos em dupla, mais sucesso tínhamos nos objetivos do jogo, tão criticados, mas dos quais é necessário a obtenção do sucesso nos mesmos para se compreender.
E então finalmente revelo a vocês o tal "fato que já havia acontecido comigo": às vezes nós temos determinada experiência com algum jogo - criamos uma opinião sobre ele depois de jogarmos por algum tempo. Esta opinião pode ser negativa. No entanto, acredito que para que essa opinião seja realmente pertinente e não deixemos escapar um tesouro valioso de nossas mãos, são necessários duas coisas: uma "mente limpa", juntamente com uma "devida compreensão".
Vou explicar o que seriam estes itens.
Devida compreensão é você literalmente compreender a essência, o TODO, o sentido que o jogo propaga. Em resumo, você precisa APRENDER A JOGÁ-LO - e isso não se baseia em "saber o que cada botão faz". E isso você não vai conseguir em 15min - possivelmente nem em 1h. É um processo que exige mais do quão do imerso você está no jogo do que necessariamente em tempo, algo mais psicológico, embora o tempo de jogo também possa ser um bom item de entrada nesta imersão. E aqui entram fatores que normalmente os gamers não observam em si-mesmos antes de começar a jogar qualquer jogo, dentre eles, seu próprio estado emocional e mental.
Não adianta. Se você chegou em casa estressado do trabalho, só querendo sua partida de FIFA ou Call of Duty para relaxar, é natural que você ache um The Witcher 3 uma merda - não afirmando também que você TEM QUE achar ele sensacional. Nós apenas não admitimos isto. Por que? Aqui entra diretamente o segundo conceito, a "mente limpa".
Aqui entra a diferença entre eu e meu primo. Para mim, Sea of Thieves era um game que um youtuber tinha tecido a opinião dele sobre, fui lá e "acabei vendo a mesma coisa". Para meu primo, era um game que ele "nunca havia jogado" e ele só sabia que estava sendo muito falado a respeito. A opinião dele, tirando a parte do hype, era nula - ele não tinha um conceito de "bom" ou "ruim". Devido a esta "mente limpa", ele conseguiu absorver fatores do jogo que eu não consegui de primeira, pois estava "intoxicado" pela opinião de outra pessoa - e isto pode se aplicar à qualquer experiência na vida, não só em games.
Por isto é importante a prática do questionamento, a mentalidade aberta, a boa saúde mental e até mesmo esta "distância" da opinião alheia quando vamos ter experiência com algo. Diferente do que pensamos, não, saber a opinião do outro não é algo bom! É um verdadeiro "material tóxico" que destrói nossa experiência individual, pois propaga nela um "vírus" de uma individualidade que não é nossa!
Por isso, eu deixo um recado à todos os gamers, inclusive os youtubers e jornalistas, que "precisam" criar opiniões sobre jogos: não se baseiem na opinião de ninguém, não joguem quando não quiserem jogar, estão estressados ou simplesmente querem jogar outra coisa - a experiência legítima de vocês com o jogo será prejudicada ou pior, falsificada. O gamer consumidor jogará seu dinheiro fora e o youtuber/jornalista propagará uma informação "falsa" que terá um ímpeto mais negativo do que positivo.
Não precisamos de informações para jogar, se não aquelas que o próprio console já nos dá - gênero, número de jogadores, imagens, videos, demos e até versões avaliação. Outro fator que realmente nos faz lavagens cerebrais são esses outros aí: notas, vendas, números...eles não dizem nada que realmente importa, a menos que você trabalhe com o mercado gamer. Tua experiência com teu jogo, como eu falei, é algo único e individual. Se você quer conteúdo gamer na internet, busque gameplays mudas ou narrativas, artigos que falam mais de informações técnicas (como as que o console já traz) e vai por aí. Mas o principal é jogar. Jogar de verdade, de alma limpa.
Sem ter assistido. Sem ter lido.
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