terça-feira, 29 de maio de 2018

O Sentido de Ser Fanboy

Você vestir a camisa de uma marca pode estar muito além de uma necessidade social. Vamos lá.

Este texto é um complemento ao vídeo do canal Detonando Gueek do grande youtuber Gotikozzy, uma das raras mentes inteligentes deste meio. Gotikozzy utilizou um estudo do psicólogo norte-americano Edward Thorndike como referência e definição do conceito de ser fanboy. Embora a psicologia experimental não seja necessariamente de minha especialidade, percebi que o conceito de Thorndike se assemelha aos estudos de alguns autores dos quais domino mais. Entre eles, o filósofo Arthur Schopenhauer e o psicanalista Sigmund Freud. Por isso utilizarei mais esta via, por questão de experiência e domínio.

Schopenhauer, de sua forma polêmica, expressava que o "homem comum", isto é, aquele que havia aperfeiçoado pouco suas faculdades mentais, tendia a ter como instinto a convivência grupal com homens que delatassem características semelhantes. Para o filósofo, isto nada mais era do que um reflexo do homem primitivo, que se sentia seguro apenas sobre a presença de seu bando, pois sabia que estranhos poderiam ser perigosos - comida e território estavam em jogo.

Desta forma, se ficamos com "nosso bando", isto nos ajuda a nos sentir confortáveis e seguros, avessos a conflitos - tudo não passa, no geral, de um instinto de sobrevivência.

No geral, tendemos a "traduzir" estes instintos primitivos e de sobrevivência em aspectos de personalidade e hábitos modernos, como completa Sigmund Freud.

Colocando isto em uma situação "gamer": à primeira vista é um pouco óbvio nos sentirmos melhores com pessoas que preferem a mesma marca do que nós, mas no mundo moderno, existem diversas variáveis que mostram que isto está além do sentido de sobrevivência primitivo. Por exemplo, eu saber que outra pessoa optou pelo mesmo produto que eu pode ser um reforço de minha inteligência ou sinal de "estar fazendo a coisa certa". Quanto mais destes encontramos, mais reforçamos esta tese, o que reforça nosso ego. Há também o fator do esforço, do dinheiro que foi impregnado ou mesmo da impossibilidade de contar com as outras opções. Por fim, indo para Freud de novo, a tranquilidade nos dá a "certeza", como uma espécie de "fé incondicional" - semelhante à religiosa.

Por isto, tranquilamente posso afirmar que ser fã incondicional de uma marca é muito mais tranquilizante do que se manter "isento". A imparcialidade (desmentida pelo discípulo de Freud, Jean-Jacques Lacan, em seu sentido mais profundo) exige sempre a análise e o "afastamento" da tranquilidade da certeza - ou, em outros casos, também acaba virando um aspecto projetivo. Passamos a "criar regras", normalmente ligadas aos momentos marcantes que tivemos com os games e tudo aquilo que não se encaixa nelas, é duramente criticado (não importando o lado), conceito definido de forma mais profunda por Carl Gustav Jung.

Assim, posso afirmar que esta "parcialidade" pode ser um tanto quanto saudável ou não, dependendo do momento da vida que estamos e também de qual é nossa relação prática com os games. Um simples consumidor, que apenas joga, dono de um Playstation 4, talvez não deva "se estressar" se perguntando se State of Decay 2 é bom - se expor ao jogo irá apenas lhe gerar dúvidas e tirá-lo do conforto de "seu bando". Por outro lado, esta não deixa de ser uma possibilidade que ele possa escolher, afinal, trata-se de sua vida e suas escolhas.

Mas e a guerra de consoles? Quando o fanboy passa a atacar de forma violenta o lado oposto?

Como eu disse, a guerra de consoles pode ser nada mais do que um bando primitivo que ganhou uma batalha contra outro e comemora entre si sobre quão mais fortes são. Isto lhes dá confiança para seguir adiante. No entanto, no sentido moderno, quando o integrante ou mesmo o grupo abandona os argumentos e o pensar, trocando-os por ofensas e ameaças físicas, provavelmente algo não está bem com ele (s) - a agressividade e quebra de regras a este ponto sinaliza problema. E dependendo do quanto esta prática está presente na vida do indivíduo, pode ser que sejam aspectos projetivos de revoltas interiores que nada têm a ver com videogames, indicando necessidade de tratamento.

Se conclui então que ser fanboy pode não ser todo este monstro dos quais os "intelectuais" criticam. Como também pode ser (um beijo para o pessoal de exatas).

Trata-se de ser humano. De querer estar seguro com aqueles que se confia e evitar o desconforto de pensar que tudo aquilo pelo qual lutamos pode não ser algo de qualidade - a escolha do questionar é sua.

Abraço e até o próximo texto!

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