sexta-feira, 13 de abril de 2018

A Doença da Nostalgia

Todos sabemos a incrível habilidade que a internet tem de nos irritar.

Principalmente aqueles que lá passam mais tempo. Ou já são, digamos, "macacos velhos".

Em minhas inevitáveis observações pela navegação, das quais naturalmente vou construindo padrões, pois penso, logo existo, tenho percebido que existe um fenômeno que está simplesmente fora de controle - embora seja importante citar que este é meu mero pensamento. Na verdade isto provavelmente sempre existiu e sempre existirá, do ponto de vista acadêmico. Só que no caso, só percebemos estas coisas quando elas passam a fazer parte de nossa vida.

Talvez o texto de hoje fuja um pouco dos conceitos do blog, mas tudo bem. Cultura nunca é demais.

Ao observar a internet de hoje (assim como outras realidades), por diversos motivos pessoais (um deles o fato de eu estar chegando aos trinta anos), tenho percebido que a doença da nostalgia tem sido protuberante nos comentários de todos os sites. Pessoas que vão lá e comentam assuntos municiados diretamente pelo material afetivo mais influente de suas vidas, as lembranças de sua infância e adolescência.

Pelo fato de meu campo acadêmico principal ser a psicologia, compreendo bem o que exatamente acontece.

De fato, como bem explica o psicanalista Sigmund Freud, a primeira etapa de nossas vidas possui um valor crucial em todo o resto - se pode dizer que é a raiz de toda nossa personalidade. Nossas relações interpessoais e culturais deste período acabam sendo grandes influências nas experiências da idade adulta. Isto porque, a grosso modo, um cérebro novo, recém saído de um ventre materno é bem mais maleável e sensível que a dura cabeça de um adulto, já construído fisicamente e com opiniões e crenças fortes devido à experiência de vida.

Mas se é um fenômeno natural por que questioná-lo ou irritar-se com ele?

A questão é que nem tudo é tão simples como parece. Nossa mente nos deu uma habilidade que consegue, vezes sim, vezes não, bater de frente ou ser tão forte contra estes impulsos infantis que é nosso intelecto - caso contrário você chamaria sua mãe chorando quando seu chefe não lhe desse aumento. Nossa capacidade de livre-arbítrio nos permite lidar e controlar com nossos impulsos mais primitivos, conseguindo até mesmo condicioná-los ao estado de meras alegorias. Tudo depende da disciplina e do autocontrole ou, até mesmo, de novas relações afetivas pois, apesar de serem menos regulares do que na infância, novas descobertas e emoções não deixam de acontecer em nossas vidas. Nossa totalidade do eu não é unicamente a juventude. Não deixamos de viver e mudar afetivamente em nossas vidas adultas - a diferença está mais na regularidade.

Agora, depois de explicar o conceito teórico, posso falar sobre a questão prática.

Muitas pessoas tem vindo sempre com aquelas conversas do tipo "a música do meu tempo era melhor", "as pessoas eram mais honestas" e até mesmo "minha geração de games era melhor". Obviamente que, pelos motivos que citei, as nossas mais intensas lembranças são as joviais. Porém, esta relação afetiva com a nostalgia, muitas vezes acaba desligando nosso senso crítico, fazendo com que nossos olhos se fechem para coisas que, no sentido funcional e técnico, de fato, são melhores, mas acabam batendo de frente com nossas paixões antigas, mergulhadas em um afeto que cega nossa inteligência.

Parabéns aos guerreiros que até aqui conseguiram vir: a grande recompensa será agora!

Aqui que acaba por entrar um dos grandes motivos do sucesso do Playstation.

Todos sabemos que o mercado gamer de hoje é constituído em grande parte por crianças e adolescentes, mas seu nível de adultos é extremamente (eu digo, extremamente, podendo se aproximar da metade) significativo. Todos sabemos que os dois primeiros consoles da Sony, por diversos motivos (leitura de CD's e DVD's e pirataria, por exemplo) foram o grande sucesso comercial perante seus concorrentes e certamente estiveram nas estantes da maioria destes gamers adultos. Gamers adultos que hoje, por sinal, fazem parte de uma publicidade gigantesca, inexistente em suas infâncias, quer sejam jornalistas, vloggers e até mesmo, bloggers - qualquer integrante da comunicação em si, que deixou de ser algo de nicho, devido à internet, principalmente.

O próprio papel social dos games mudou, hoje possuindo mais prestígio e influência, além de investimentos cada vez mais milionários. O que era brincadeira, hoje, de fato ficou sério.

E que fique bem claro que este foi apenas um dos tantos motivos do sucesso do Playstation - não é isto que estou tentando explicar aqui. Trata-se de um pequeno exemplo do efeito da "doença da nostalgia". Posso citar também questões como o gaming online e o multiplayer - métodos de jogo populares e significativos para os mais jovens, mas para a maioria dos mais velhos, sem tanta relevância assim, pois era uma realidade inexistente em "nosso tempo". Tantos outros exemplos poderiam ser citados, mas acredito que minha analogia já está clara, certo? Resumindo: queremos ver nossa realidade jovial em nossa realidade atual, seja nos games, seja na vida em si. E aí que entra o perigo.

A Sony trabalha se utilizando deste recurso psicológico - esperta, ela, pois tem este poder. Diferente da Microsoft, que só surgiu posteriormente neste mercado.

O principal problema da mesma trabalhar assim (problema para nós, lucro para eles) é que muitas vezes, deixamos de ver a realidade exata das coisas. Posso citar minha experiência pessoal com o novo God of War: posso dizer que fiquei simplesmente emocionado; senti minha identificação pessoal com o protagonista Kratos, sua maturidade expressa no game (assim como aconteceu em minha vida pessoal) e tudo aquilo que me fazia ser fã da série. No entanto, depois de me desprender um pouco desta questão afetiva e ver o game de forma mais crítica, o que encontrei acabou não sendo tão bom assim, longe de ser ruim. No geral, um caso de superestima - um game que no sentido técnico não merecia tanto "amor" assim.

Por isto muitas vezes o Xbox é taxado de "vilão". Ainda mais para nós, brasileiros.

Sabemos que sua primeira versão, o Xbox original de 2001, foi a realidade de muito poucos aqui - assim como seu direto "ancestral", o protocolo do Windows conhecido como DirectX, que lhe permitia rodar games de forma mais otimizada. A maioria dos computadores brasileiros eram bem de nicho e quase sempre voltados ao trabalho - PC Gamers eram praticamente inexistentes ou incomparáveis aos videogames.

A grande questão e motivação deste texto não é pedir, porém, que "amem o Xbox". Longe disso.

Cada um consome o produto que quer, na medida que quer - é um direito cívico básico. No entanto, é sempre importante que nós, gamers - pessoas que já tem um apelo amoroso pelo hábito de jogar - não fechemos nossos olhos para a qualidade do serviço que estamos consumindo. Devemos ver o Playstation 4 como o Playstation 4, não como o 2 ou o 1, assim como o novo God of War em comparação com seus títulos originais de PS2. Da mesma forma que devemos ver o Xbox One ou o Sea of Thieves como aquilo que realmente são - não são Playstations, nem God of Wars, nem single-players.

Talvez o que esteja faltando neste universo e em outros seja esta capacidade de discernir o nostálgico do real. Nos adaptarmos e vivenciarmos estes tempos de forma mais presente, sem relevar tanto o que já foi.

Temos cérebro para isto, garanto. Basta pensar um pouco.

Espero que tenham gostado e até mais ver, sempre pensando e existindo.

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